Criação de um projeto de lei sobre influenciadores digitais

Responsáveis: Maria Luiza Zeferino, Júlia Emanuele de Oliveira, Sofia Rodrigues Guedes

Conheça o projeto que teve como objetivo refletir sobre o uso crítico e responsável das redes sociais, os conteúdos consumidos, as relações interpessoais e o bem-estar nos espaços on-line, bem como sobre a relação dessas experiências com a construção de identidade. Esse projeto foi desenvolvido no primeiro semestre de 2025, antes da “explosão” do caso Hytalo Santos, através de vídeo do influenciador Felca, que é mais um exemplo de questões das redes sociais para as quais a escola precisa educar.


Projeto de lei “Influenciadores digitais”: uma experiência de letramento digital nos anos finais do ensino fundamental

Introdução

O presente relato apresenta uma experiência de letramento digital (Buckingham, 2015) em uma escola pública de ensino fundamental, e que é parte das ações articuladas de dois projetos de pesquisa e um de extensão. Para além da perspectiva proibicionista (que demoniza o uso das tecnologias digitais pelas novas gerações), reforçada pela lei 15.100/2025, direcionamos o olhar para os desafios que a cultura digital apresenta aos adolescentes.

A proposta,  realizada em oito encontros de 80 minutos, com um grupo de 15 estudantes de 7o a 9o ano, no primeiro semestre de 2025, denominada “Transformação digital: um olhar crítico sobre as relações digitais”, teve como objetivo refletir sobre o uso crítico e responsável das redes sociais, os conteúdos consumidos, as relações interpessoais e o bem-estar nos espaços on-line, bem como sobre a relação dessas experiências com a construção de identidade. A metodologia se inspirou na ideia de pesquisa-ensino (Zaidan; Ferreira; Kawasaki, 2018), na perspectiva de elaboração de uma ação educativa que é também objeto de investigação.

Relato de experiência: letramento digital em ação

No primeiro encontro, utilizando perfis e casos famosos nas redes sociais (Virgínia Fonseca e a divulgação de apostas, MC Pipokinha e a hipersexualização feminina, a polêmica envolvendo Antonella Braga, Júlia Pimentel e Liz Macedo etc.), refletimos criticamente sobre o papel dos influenciadores nas redes sociais, A partir de perguntas norteadoras como “Você percebe a atitude problemática desse influenciador?”, “Qual o público desse influenciador?”, “Quais as consequências do discurso desse influenciador?” e “Há soluções para esse cenário?”, os estudantes, divididos em grupos, debateram sobre influenciadores com os quais eles têm contato nas redes, mas cujos discursos ou atitudes não questionavam costumavam questionar. 

No segundo encontro, discutimos o conceito de cancelamento, central nas redes sociais, partindo do caso de Karol Conká que, mesmo atuando como cantora, sofreu com as repercussões digitais de sua participação no programa de reality show “Big Brother Brasil”, sendo um exemplo clássico do cancelamento nas redes. Em seguida, realizamos um júri simulado, com um grupo de defesa e um de acusação, para debater um caso fictício gerado pelo ChatGPT sobre cancelamento nas redes sociais. O júri provocou um grande engajamento nos estudantes, que competiram por falas e argumentos e demonstraram capacidade de reflexão crítica.

No terceiro encontro, discutimos a diferença entre hate e cyberbullying, provocando a turma a classificar frases típicas de comentários em vídeos on-line. Então, realizamos outro júri simulado, com um caso de violência nas redes criado pelo ChatGPT, em que metade da turma defendeu que se tratava de cyberbullying e a outra que era caso de hate. O debate foi interessante, mas não aconteceu de forma tão acalorada quanto na aula anterior, o que nos fez avaliar que aquele formato estava saturado naquele momento. 

Para problematizar conteúdos e personalidades que adolescentes consomem nas redes sociais, selecionamos, para o quarto encontro, falas reais – tanto preconceituosas quanto de resistência – de figuras públicas variadas (Monark, Kérrolen e Nancy, Raiam Santos e Jones; Mc Soffia, Lady Gaga e Iza; Erika Hilton e Nikolas Ferreira; Vini Jr e Mbappé; Léo Lins). Inicialmente, numa atividade de “adivinhação”, a turma não conseguiu associar os nomes das pessoas às falas ou atitudes apresentadas. Em seguida, numa roda de conversa, questionamos os preconceitos expostos, além de reforçar as resistências apresentadas, abordando questões como racismo, misoginia, homofobia e transfobia. Então, os estudantes escolheram uma das personalidades apresentadas e simularam uma resposta a ela por meio de uma rede social. Para finalizar a aula, responderam, por escrito, às seguintes perguntas: “Você acha que dar “like” ou compartilhar um conteúdo que ofende alguém também é uma forma de concordar com ele? Por quê?”, “Você escolhe quem seguir nas redes pensando no conteúdo ou só porque é famoso(a)?”, “Como saber se um conteúdo está reforçando preconceitos, mesmo que pareça engraçado ou ‘de boa’?”. Essa aula repercutiu de forma muito positiva na turma, tanto pela participação ativa no debate quanto pelo respeito dos estudantes em relação ao que foi apresentado. A turma se sentiram à vontade para explorar temas como sexualidade e identidade de gênero,apresentando uma postura dialógica e reflexiva em relação aos conteúdos consumidos nas redes sociais. 

No quinto encontro, propusemos aos estudantes a elaboração de um projeto de lei (PL) que tratasse do papel dos influenciadores nas redes sociais e a turma resolveu que o tema da lei seria a regulamentação do exercício dos influenciadores nas redes. A elaboração desse projeto de lei pelos estudantes significa uma formação que considera o exercício crítico dos direitos civis, políticos e sociais (Carvalho, 2021), na direção da educação para a cidadania digital. Em pequenos grupos, cada um incumbido da redação de uma parte do projeto, a turma começou a construção a partir de questões norteadoras de como se dá a escrita de uma lei. Foi necessário continuar com a escrita no sexto encontro, no qual utilizamos o ChatGPT como ferramenta de apoio à revisão da escrita, ao final do qual, o projeto de lei foi finalizado, com seis artigos, uma justificativa, o preâmbulo e o título. 

Para o sétimo encontro, imprimimos a versão final do PL, com as partes mais importantes grifadas, para que a turma, em grupo, discutisse os principais pontos do PL. Como dinâmica de fixação, com a turma dividida em dois grupos, realizamos um jogo de verdadeiro ou falso com perguntas sobre o PL, atividade desenvolvida com muita animação pelos adolescentes. No fim desse encontro, os estudantes criaram vídeos de divulgação do projeto de lei, que eles mesmos roteirizaram e gravaram. 

Os estudantes, então, ficaram encarregados de escrever a vereadores de BH que já tivessem tratado da cultura digital, fazendo o convite para virem à escola para discutir sobre o projeto de lei criado pela turma. Uma vereadora e um vereador responderam, resultando na ida de Nathália Ramos, assessora do vereador Bruno Pedralva, que participou do último encontro. Ela apresentou um vídeo sobre o papel dos vereadores, explicou a tramitação de um projeto de lei e apresentou sua análise sobre o PL da turma. Segundo a assessora, o PL produzido pela turma tinha qualidade suficiente para tramitação, mas indicou que, tendo em vista o tema abordado, ele deveria ser enviado à Câmara Federal. Os estudantes tiveram a oportunidade de dialogar com a assessora, demonstrando interesse no assunto e empolgação com a análise do projeto de lei criado por eles.

Aula com participação de assessora de vereador

Considerações finais

Os encontros possibilitaram aos estudantes a desnaturalização de temas comumente consumidos nas redes, a partir da interpretação crítica de fenômenos como o cancelamento, hate, cyberbullying, misoginia, racismo e homofobia, muitas vezes divulgados como “piadas” nas redes, mas que afetam profundamente as vítimas desse tipo de violência. Em vista disso, nos aproximamos de uma perspectiva de letramento digital crítico dos adolescentes, entendido como a abordagem não só das características textuais da mídia, mas também de suas “implicações sociais, econômicas e culturais”, como destaca Buckingham (2015, p. 30). 

Durante as aulas, foi observada uma situação particular muito significativa para o processo formativo dos estudantes. Um estudante demonstrou interesse em determinado influenciador digital que apresentava comportamentos misóginos nas redes sociais. No entanto, ao ser confrontado com reflexões críticas em um dos encontros, demonstrou resistência em revisar suas próprias crenças e manteve-se, inicialmente, apegado à perspectiva previamente consolidada. Apesar da relutância inicial, o aluno permaneceu engajado na discussão e, ao longo do processo, demonstrou maior abertura ao diálogo. Embora não tenha ocorrido uma mudança imediata, o episódio evidencia o caráter desafiador e formativo da educação, especialmente no que diz respeito ao letramento digital.

Vale destacar o interesse e a valorização, pelos adolescentes, de experiências que investiram na argumentação, na consideração do ponto de vista deles e na interação entre eles, apontando que as estratégias que valorizam a autonomia e o pensamento crítico têm a possibilidade de qualificar e dar sentido aos processos de ensino-aprendizagem. 

Para além da proibição dos celulares, é central discutir os desafios do uso das tecnologias digitais (Odgers, 2024) com adolescentes, pensando na sua imersão crítica, cuidadosa e responsável na cultura digital, a fim de qualificar para o reconhecimento de potencialidades, riscos e desafios das redes sociais que, mesmo numa sociedade com viés proibicionista, constituem-se como elemento inelutável da vida na sociedade contemporânea.

Referências

BUCKINGHAM, David.. Defining digital literacy. Nordic Journal of Digital Literacy Special Issue, p. 21–34, 2015.

DE CARVALHO, José Murilo. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2021.

ODGERS, Candice L.; HAYES, Gillian R. Let’s stop shaming teens about social media use. Educational Leadership, v. 81, n. 5, p. 38-43, 2024.

ZAIDAN, Samira; FERREIRA, Maria Cristina Costa; KAWASAKI, Terezinha Fumi. A pesquisa da própria prática no mestrado profissional. Plurais-Revista Multidisciplinar, v. 3, n. 1, p. 88-103, 2018.

Palavras-chave: letramento digital, adolescência; escola; ensino fundamental; tecnologias digitais; cultura digital.

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